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EDITORA DA TRIBO - Coleção das Agendas 2009

TEXTO DA SEMANA

Era um prefeito muito religioso.
A cada obra, pegava um terço.

-Wilson Gorj

Lugares

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Lugares, não-lugares, pós-lugares ... e nosso lugar ao sol.

 


          Qual a capital do Sri Lanka? Quantos habitantes tem a cidade do México? Quais os afluentes da margem direita do Amazonas? A gente aprendeu na escola uma geografia que consistia em acumular um catatau de dados mais ou menos inúteis sobre o maior número de lugares possível. E olhando ao redor, hoje, a gente sempre acaba sendo pego de surpresa por algo que não sabíamos sobre a nossa rua, nosso bairro ou cidade. A gente está mergulhado todo dia naquele espaço e de quando em vez se pergunta – que lugar é esse? O que nos cerca, seja planta, chão ou concreto armado, está mudando o tempo todo, e parece não ter a mínima intenção de nos informar por quê, para quê, por vontade de quem. A padaria que faliu depois que abriram a delicatessen na outra esquina, o casarão que foi derrubado para dar lugar ao arranha-céu, o rio em que seu avô pescava sendo escoado por canaletas subterrâneas pra abrir espaço para uma pista de velocidade.

 
  

          Para alguns críticos, de nada vale o mapa-múndi se a gente não consegue entender como é que o local em que vivemos vai sendo continuamente construído, como a gente interage com ele, como cada um influi na modelagem do espaço que é comum, e que por isso mesmo deveria ser nosso também. O bairro, a feira-livre, a praça, o supermercado... Cada um desses espaços tem uma dinâmica própria, um público próprio, um conjunto de relações que se estabelecem dentro dele, sobre ele, uma teia que nos liga aos nossos vizinhos, aos nossos sócios nesse ou naquele lugar. Estejamos absolutamente sozinhos ou organizados em associações, galeras, partidos, times de futebol, sempre que interagimos com algum espaço estamos interagindo também com outras pessoas, estamos construindo juntos o funcionamento desse espaço – no sentido original do termo, estamos fazendo política.


          Acontece que, no cerne dessa mania de modernizar e globalizar que tomou o nosso século de assalto, assistimos, como num programa de tevê, aos lugares de convivência – essas arenas onde o que é social e o que é político são expostos e diretamente negociados por gente como eu e você – serem gradualmente substituídos por paisagens cada vez mais padronizadas, cada vez mais regulamentadas, cada vez mais impessoais. Shopping centers, estações de metrô e cia ltda são chamados criticamente de não-lugares, justamente por esvaziar a dimensão humana – social, política, cultural – de todas as trocas que lá acontecem. Você já experimentou puxar conversa com um caixa de fast-food? Você sabe o nome da pessoa que fica dentro da guarita do estacionamento do shopping? Em Sampa, Pequim ou Lagos, você pede pelo número e nem percebe que à sua frente tem um ser humano. Pudera! Essa pessoa age e fala como um robô, conforme normas bem delineadas, formuladas por consultores especializados em marketing e qualificadas com o selo ISO 9002. E se ela tem um filho, se ela sonha em ser astronauta, se gosta do Nirvana ou de Jackson do Pandeiro? Essas coisas você nunca vai saber.


          Mas como chegamos até isso? Esse aspecto da modernidade é, pelo menos, bem conhecido: a revolução das comunicações potencializou a circulação mundial do que chamamos de fichas simbólicas (dinheiro, ações, carteiras de identidade, cartões de crédito, contratos, travellers checks). Principalmente através delas, nosso mundo conseguiu desvincular boa parte das trocas humanas (principalmente as econômicas) da necessidade da presença do outro. Hoje você pode facilmente comprar um livro numa loja alemã, pagando com cartão de crédito e recebendo a encomenda pelo correio. Você pode ter uma namorada que passa metade do ano na Índia, ou um sócio no Canadá com quem você fala por mail, telefone ou carta. Você pode inclusive fazer sexo virtual com alguém nas Bahamas, ao custo de alguns reais por minuto debitados diretamente em sua conta telefônica. Não importa quem está do outro lado. Seja essa pessoa quem for, importa que ela saiba de cor o seu papel, a sua função nessa engrenagem – que é definida por outra pessoa, em outro lugar, segundo outros interesses. Cada vez mais, nos relacionamos diretamente com um sistema abstrato e menos com pessoas reais, cada vez mais com regras e procedimentos genéricos e menos com a especificidade, a característica local, a diferença pessoal.

  


          E agora? Esse é um beco sem saída? É preciso renunciar à internet, à tevê a cabo, terminar com a namorada viajante? Não é esse o caso. A tecnologia que está por baixo desses processos, não determina nada, apenas cria possibilidades. A equação tecnologia => progresso esconde convenientemente que para ir a algum lugar é preciso saber, antes de tudo, em que direção. E essa direção pode ser influenciada tanto por multinacionais e governos quanto por pessoas comuns, no exercício cotidiano de suas atitudes e posturas diante da vida e do outro.


          Como diriam os squatters, o negócio é ocupar e resistir. Se o não-lugar é uma realidade, vamos poluí-lo, vamos recheá-lo de vida, de experiências pessoais, de atitudes que se toquem da existência do outro, que o resgatem do limbo a que ele está condenado. Vamos fazer a tecnologia falar a nossa língua, e falar das nossas coisas, nossos problemas, nossas dúvidas, desejos, projeções. Converse, escute, discuta, argumente, conte, ache. Numa palavra: interaja. Com seu vizinho, com seu colega de trabalho, com o ICQ 1294757, com o garoto tailandês na sala de chat, comigo... É só começar.




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