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EDITORA DA TRIBO - Coleção das Agendas 2009

TEXTO DA SEMANA

Era um prefeito muito religioso.
A cada obra, pegava um terço.

-Wilson Gorj

Escândalo - a Tribo não faz autogestão!

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          A Tribo Faz Autogestão?

          Que fique bem claro: a autogestão, para nós, é uma meta.


          Sabemos que a legítima autogestão pressupõe o anarquismo, uma sociedade socialista, sem Estado e voltada para o desenvolvimento humano. Não é o que vivemos, não é assim a sociedade em que estamos.


          Nós nos esforçamos para que em nosso trabalho haja o máximo de comunicação direta, haja decisões tomadas pelas pessoas que executam as tarefas. Mas nada disso produz socialismo ou altera a ordem social exploratória em que estamos inseridos.


          Tentamos fazer o trabalho entre nós ser remunerado igualitariamente. Distribuímos o fruto de nossa produção da maneira mais equânime possível. Porém é verdade que assalariamos, que subcontratamos empresas que pagam mal a seus funcionários, que não conseguimos manter todos aqueles que contribuem com seu trabalho protegidos pelo organismo que estamos tentando criar. Se é verdade que vivemos melhor em nosso trabalho, também é verdade que isso exclui quase tudo o que nos cerca.

 

Batalhamos por nossa mensagem, nos poemas e textos de nosso Livro da Tribo, de uma sociedade ecologicamente sustentável, livre do poder econômico, do patriarcado autoritário, dos comportamentos competitivos. Levamos adiante nossa idéia de uma nova forma de convivência que seja mais justa e na qual valores como respeito à natureza, solidariedade, comunidade e cooperação estejam em um lugar central. Pintamos nossa utopia baseada em amizade, amor, cumplicidade, cuidado recíproco. Não achamos que estamos fazendo tudo o que podemos por estes ideais, sequer consideramos que os tenhamos claros a ponto de nos considerarmos seus porta-vozes.

  


          Sabemos que estas idéias precisam de muito mais que belas palavras e sinceras intenções: precisam de prática, muito além da que podemos ensaiar entre os participantes desta nossa tribo. Esta liberdade e esta justiça não vão acontecer só porque as estamos praticando entre nós.


          Por isso, nos faltaria quase tudo o que é necessário para nos considerarmos uma experiência autogestionária: uma ativa inserção no meio social, com propostas para construir espaços e mecanismos para uma transformação da sociedade tanto local quanto globalmente; um socialismo genuíno, com o envolvimento de todos os trabalhadores nas decisões e na distribuição da renda; enfim, uma prática revolucionária que se construa além da sensibilização e da denúncia.


          Mesmo que tivéssemos tudo isso, ainda seria preciso lidar com as contradições objetivas e subjetivas entre esta autogestão e a sociedade que a cerca, com mercado, governo, impostos, partidos, etc.


  

          Só o que temos é uns aos outros, contando entre estes "outros" gente que está em muitos barcos diferentes, tateando estes mesmos paradoxos. Temos isto e nossa história de lutas, de tentativas e erros, de projetos, certezas, desencontros, questionamentos. Temos esta pequena célula que inventamos, que nos permite respirar um pouco o ar desta autogestão social que queremos ajudar a criar. Somos só um bando, uma entre infinitas tribos, experimentando; tentando, através da experiência, nos assegurar de que nossas propostas para os outros sejam factíveis entre nós.


          Por isso, nós não praticamos autogestão. Praticamos pouco mais que uma família ampliada, de gente que se gosta, se dá colo, produz junto, discute a vida e para onde ir.


          E exatamente porque sabemos que temos aonde ir, que devemos nos mover, vamos continuar a falar sobre autogestão.


          Como se ela estivesse ali, dependendo só da vontade das pessoas para alcançá-la.



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