Era um prefeito muito religioso.
A cada obra, pegava um terço.
-Wilson Gorj
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Com o autogoverno, uma infinidade de profissões e funções não produtivas perdem seu significado: não são mais necessários todos os controladores (supervisores, zeladores, seguranças, policiais, exército, etc.), os legisladores, os governantes. Ademais, o planejamento e execução das tarefas passa a ser função dos maiores conhecedores, isto é, daqueles que as executam e utilizam. A idéia central é eliminar a tecnoburocracia, substituindo-a pela gestão direta dos interessados. Nós, no entanto, usamos mais freqüentemente a palavra autogestão como sinônimo de autoadministração. Se o autogoverno é uma meta a ser atingida, a autoadministração é perfeitamente viável já. Sua fórmula é relativamente simples: o trabalho é operado, pensado e decidido de forma igualitária, sem dono da bola, pois a propriedade é coletiva e não existe hierarquia (o que não significa que não exista divisão de tarefas). Sua prática implica em grande parte dos desafios do autogoverno e do próprio anarquismo, tais como capacitar pessoas e grupos para um exercício de cooperação integral, derrubando preconceitos como a predestinação de certas pessoas para mandar ou obedecer. A liderança é possível e desejável na autogestão, mas supõe-se que ninguém será lider sempre, havendo uma alternância, dependendo da circunstância, de lideranças mais afetivas, mais agressivas, mais técnicas, etc. |
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Para nós, há dois aspectos importantes desta prática autogestionária: primeiro, estimula a responsabilização de um grupo por seu destino, acabando com a dicotomia patrão-preocupado-e-rico x trabalhador-alienado-e-explorado. É a prática dos princípios do autogoverno e de autonomia cooperativa, contraposta à autonomia individualista e predatória do capitalismo liberal. Portanto, o primeiro aspecto da autogestão é uma espécie de ensaio de uma sociedade mais justa, que responsabilize-se por seu destino, respeitando e cuidando mais de seus membros. |
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O segundo aspecto é individual. Se é verdade, como acredita a antipsiquiatria e como diz o bom-senso, que grande parte do sofrimento pessoal (solidão, carência, agressividade deslocada) tem origens sociais, então também é verdade que um espaço social de exercício de nossa individualidade que seja cercado de cuidado e atenção fraterna será um antídoto para tudo isto. Os grupos autogestionários representam mais que uma possibilidade de integração e afeto, eliminando a dissociação comum entre trabalho e vida; eles também exigem de seus membros uma extraordinária disponibilidade de transformação pessoal, pois é preciso aprender, no sentido usado por Piaget, a reciprocidade com o outro, o respeito às diferenças, perder o medo e enfrentar os conflitos. Sem as amarras dos manuais de comportamento organizacional, as pessoas tornam-se diretamente responsáveis pela manutenção de suas relações no trabalho e têm que desenvolver uma ética e uma sociabilidade à altura de como esperam ser tratadas. A prática da autogestão, portanto, nos parece uma excelente forma de conciliar desejos como a luta por uma sociedade baseada em parâmetros mais humanos, a autonomia criativa, produtiva e econômica e a vontade de autoconhecimento e transformação pessoal. |